terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um Mundo Sem Finais Felizes?

Sim, há muitas casas de massagem tailandesa em Praga, praticamente uma por esquina, e não, não há qualquer alusão ao que o novo mundo nomeou de "final feliz", o que torna tudo tão enigmático que duas conclusões são possíveis: 1-) os tchecos são tão tensos que precisam de uma casa de massagem por esquina, e ainda assim não é o suficiente, e por isso eles continuam em estado de permanente tensão; 2-) os tchecos são tão tensos porque há muitas casas de massagens, mas nenhuma delas oferece o suficiente, e por isso eles permanecem em estado de neurótica tensão.


O que eu quero dizer é que você não precisa de muito para irritar um tcheco, na verdade você precisa apenas estar lá, existindo, e por existir quero dizer entregue a qualquer uma das atividades degradantes que permeiam a existência: seja querer comprar um souvenir (fui expulso de uma lojinha nos arredores do castelo apenas porque entrei lá enquanto a velhinha passava pano molhado no chão), seja querer ir ao banheiro (não basta fechar os banheiros públicos às nove da noite em pleno sábado, com turistas bêbados se arrastando por cada viela da cidade, é preciso berrar com quem tenta usar o banheiro público, e quando digo berrar quero dizer berrar em tcheco, naturalmente).


Para ser justo, devo dizer que até agora apenas mereci uma das muitas broncas que recebi em tcheco ou francês, porque sim, os europeus vivem dando bronca uns nos outros. É como viver numa casa composta por quinze irmãos hiperativos, pais neuróticos e um tio meio vagabundo que já teve muito poder, embora todos tenham narizes perfeitos, e aqui eu digo: alô, imigração para o novo mundo, alô! por que você destruiu o meu nariz?


De todo modo, segue aqui a descrição da bronca justa. Lá estava eu, andando por calçadas que foram palcos para sangrentos massacres, madrugada de sábado para domingo,  após ter feito toda a família Collins no Zanzi Bar (descobri que não existe apenas o Tom Collins, feito com gin, mas também há o Colonel Collins, com uísque, e o Juan Collins, feito com tequila), com os termômetros marcando quase zero grau, quase nenhum turista pela ruas, e então resolvo cruzar a Ponte Carlos e me deparo com a estátua aludida por certa guia inglesa. A imagem de um cachorro, de um santo ou rei, e a de uma mulher ou santa, e não, não me peçam mais detalhes porque sou um viajante preguiçoso, sendo que: a-) passar a mão no cachorro significa azar; b-) acariciar o santo é sinal de sorte; c-) afagar a mulher é garantia de fertilidade. Foi então que, movido pelo mais profundo e etílico sentido da heresia, resolvi tirar uma foto enquanto fazia agrados no cachorro com uma das mãos e, com a outra, imortalizava um sinal de positivo. Nesse exato momento também passava um ancião pelo ponte, e ancião aqui é a palavra exata, porque o homem tinha barba branca, estava todo vestido de negro, usava um chapéu e exalava toda aquela gravidade respeitável e enigmática inerente aos anciãos. Ao me ver, de imediato o rosto do ancião foi modificado por tremores de espanto, e aí ele começou a falar em tcheco (seria tcheco?), sem gritar, apenas no tom exato para as suas palavras serem ouvidas pelas gárgulas das catedrais. Tudo o que pude fazer foi me afastar, ainda pela Ponte Carlos, com a pureza do frio tornando mais límpidas as estrelas e as profundas águas do rio. Toda a aragem da noite era como minúscula poeira de neve que abria feridas em meus pulmões e meu coração, tudo revestido pela sofrida e silenciosa humildade dos que enfim perceberam a sombra do azar pousando sobre cada trêmula e cintilante possibilidade surgida. Ainda haveria, no meu caminho, Paris e Amsterdã. 


3 comentários:

  1. Em suma: o senhor tomou um pito de um velho tcheco?

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  2. pode-se dizer que sim. mas a verdade é que tenho levado muitas broncas, por mais que me esforce para respeitar os costumes locais.

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