quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Gárgulas

Em Praga, os pedintes de esmola estão entre as visões mais impressionantes da cidade. Eles ficam todos ajoelhados e curvados, batidos por uma imobilidade de estátua, a fronte pousada no chão, penitentes, sem dirigir uma única palavra aos transeuntes, sem nem sequer erguer os olhos para o que acontece ao redor. Uma imagem não muito diferente das inúmeras gárgulas, anjos de asas retorcidas e cristos crucifixados que, mais do que esculpidos na pedra, parecem presos à pedra, ou seja, presos ao mundo da dor e da carne e da finitude. Como se cada catedral, em vez da celebração do divino, fosse um desesperado relato da impossibilidade de comunhão com o divino.


Já em Paris os pedintes adotam outros protocolos. São geralmente velhos sujos que estendem as mãos para os pedestres. A exceção, até agora, foram as meninas surdas e mudas que encontrei tanto na igreja de Saint-Eustache como na escadaria que leva até a Sacre Couer. Em Saint-Eustache a abordagem foi mais branda e conseguiu de mim uma nota de cinco euros, provavelmente a maior quantia já dada por mim a um pedinte, talvez para aliviar a culpa de estar ali e não ser digno de estar, talvez por ser a única maneira de estabelecer algum diálogo com os anjos retorcidos e cristos em queda aprisionados ao mármore. Em contrapartida, na escadaria de Sacre Couer o encontro aconteceu no último passeio do dia, quando eu já estava exausto. A menina, ao perceber a minha aproximação, começou a me lançar beijos, a me abençoar, a querer me pegar pela mão, gestual que eu já conhecia da igreja de Saint-Eustache.  Com alguma dificuldade, desvencilhei-me, mas a menina continuou a me cercar. Sinalizei que estava sem dinheiro. A menina tornou a me lançar beijos. Ainda consegui falar, na melhor frase que consegui elaborar em francês até agora, que já havia feito uma doação no dia anterior, alheio à ironia de que, pelo menos em tese, eu falava a uma surda. Ao perceber isso, tentei novo movimento para me desvencilhar. A menina, ao perceber que teria que me dar passagem, começou a dar fracos mas insistentes socos contra o meu peito e ombro - e a sua boca se mexia, deformando o seu rosto com terríveis esgares, embora nenhum som fosse ouvido. Ao deixar tudo isso para trás ainda passei por um estreito caminho de musgo e erva e, após a última volta da escada, deparei-me com o sagrado coração, todo ele invadido por turistas, por flashes sem fim, por negros que faziam malabarismos com bolas de futebol, tudo em negação de que só é  possível subir as escadarias até certo ponto, tudo alheio à dor de nunca se libertar da pedra, de ser gárgula e viver entre gárgulas, de ser surdo e nada poder falar, de saber que lá dentro está cristo mas cá fora o céu é um vento branco e frio.







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