Em Praga ouvi melhores músicas do que em Paris. O motorista que me levou até o albergue, por exemplo. Ainda estávamos no aeroporto quando ele ligou o rádio do carro e a primeira música que ouvi foi essa aqui. Ainda nesse primeiro dia, ao ir a um pub local, deparei-me com músicas do Iggy Pop, Smiths, New Order. Em outra manhã, enquanto checava os meus email numa lam house, a menina do computador ao lado ouvia músicas de igual qualidade.
Já em Paris as rádios parecem só tocar música ruim, o que é incompatível com uma cidade que lotou um teatro para um festival de rock organizado pela revista Les Inrockputibles. Durante esse próprio festival, no intervalo entre as bandas, quando o som ficava a cargo de um dj, o que tocava era absolutamente incompatível com o ambiente. Tanto é que quando eu ouvi o supremo clichê dos anos 2000, a.k.a "Laste Nite", várias pessoas começaram a gritar em sinal de alegria e aprovação. Outro vestígio de que os djs de Paris são realmente ruins é que, no dia anterior, num bar de discotecagem rock apinhado de gente que estava lá louca para dançar e que estava facilitando ao máximo o trabalho do cara, o êxito só veio quando surgiram barbadas como Franz Ferdinand e mais uma vez Strokes, desta feita com "I Can't Win", momento no qual a minha amiga gritou para que o dj aumentasse o volume e um dos seguranças veio e disse que era proibido tocar mais alto. Em outro bar para um público descoladinho, as apelações foram ainda mais deprimentes: Usher e 50 Cent.
O mais bizarro é que Paris se vende como uma cidade também voltada para a música. E em alguns momentos ela realmente chega perto de encantar. Por duas vezes, dentro dos vagões do metrô, encontrei grupos de jazz realmente bons. Outras vez, ao descer em determinada estação, o som de uma guitarra distorcida chegava pelos túneis do mêtro, reverberação fantasmagórica, sobretudo em razão da natureza de labirinto dos metrôs parisienses, com os seus diversos andares e túneis em todas as direções imagináveis. Depois, à medida que eu me aproximava de uma das saídas, mais nítida e intensa se tornava a música, criando um clima de expectativa que, por si só, era a garantia de que algo estava acontecendo. E então surgiu diante de mim um banda de rock tocando Jimi Hendrix. Por último, relembro o homem que, ainda num dos vagões de metrô, surpreendeu os passageiros com isso aqui. Não me lembro do rosto do homem, creio que porque viajava com as costas voltadas para ele. Recordo apenas que, durante os acordes da música, relembrei a música que me recebeu no velho mundo, porque sim, tudo machuca e tudo pode ser belo: do macio céu de outono que cai sobre Paris, amarelando as folhas e atapetando os caminhos, à férrea desolação de uma estação de trem nos arredores de Praga. A negação disso não é nada mais do que o esvaziamento do mundo.
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