Paris é uma cidade obcecada por sua própria grandeza: há as catedrais de Sacre Couer e Notredame, a imensidão do Louvre e os seus jardins, Les Invalides, e tudo o mais que já foi enumerado para além da exaustão. Talvez por isso, numa cidade assim, um evento de pura banalidade guarde uma inesperada capacidade de espantar. Foi o que aconteceu hoje, lá pelas sete da noite de um dia cujo céu fora cinza e que naquele momento adquiria tons de vermelho, um tom muito parecido com o que tantas encontrei em minha cidade, quando divisava o céu para além do telhado da casa da avó morta e observava as nuvens escarlates e sabia que poderia chover e que isso traria alguma suavidade para um dia de absoluta esterilidade.
Mas um céu vermelho não garante a chuva, e foi isso o que aconteceu hoje: a umidade do ar era mais densa do que a do orvalho, mas chuva não havia. Eu estava diante da cidade universitária, à espera de minha amiga, cansado após ter caminhado durante toda a tarde e boa parte da manhã. A cidade universitária, com os seus prédios baixos e perfilados, não é muito diferente de tantos outros alojamentos que vi no Brasil. No outro lado da rua, havia um ponto de ônibus. Universitários desciam, subiam, alguns esperavam. Do alto dos postes caía uma luz fraca, incapaz de dissipar os mais densos focos de sombras. Diante de mim, na mesma calçada, um árabe vendia abacates e bananas. Ao meu lado, uma francesa vestida de negro não parava de falar no telefone celular. Era bonita, com a sua pele clara e os cabelos de um castanho quase loiro, mas pulsava nela um cansaço, uma rendição ao repetir monótono das horas, talvez a sabedoria de que a beleza não existe em todos os momentos, e que nem sempre é possível ser reflexo da beleza ao redor - pois essa é uma impressão que tive sobre a maioria dos parisienses, todos vestidos como se tivessem saídos de um catálogo da vogue, todos impregnados do desejo de reverberar a beleza arquitetônica da cidade, ou melhor, é como se eles se esforçassem para não ser uma distorção, uma mácula. No entanto, uma mácula foi tudo o que existiu às sete horas da noite de hoje, com o céu vermelho, o ar carregado de umidade fria, as pessoas esperando e indo e voltando, os abacates e as bananas na barraca improvisada, e uma menina de voz cantante combinando banalidades ao celular, depois levantando, partindo e sumindo nas sombras que a luz caída dos postes era incapaz de dissolver, tão esquecível quanto qualquer dia sem história.
Nenhum comentário:
Postar um comentário