quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Agora sim, algo sobre as francesas

O dia começou com um plano singelo: primeiro ir até as igrejas de Saint-Germain-des-Prés e Saint-Sulpice, depois passear pelo Jardin du Luxembourg,  de lá seguir até o Panthéon e, se houvesse tempo, encerrar o dia no Jardin des Plantes.

A primeira metade do plano foi cumprida com eficácia: não tive dificuldade para encontrar as igrejas e, após uma ligeira desorientação após sair de Saint-Sulpice, logo encontrei a rua que margeava o Jardin du Luxembourg. Era o dia mais bonito desde a minha chegada em Paris e, por dia mais bonito, quero dizer o primeiro dia de sol, mas não uma luz persistente e cristalina, mas sim uma luz que apenas eventualmente conseguia romper as barreiras das nuvens. Como em todos os meus passeios pela cidade, havia muitas garotas bonitas, sendo certo que as parisienses (ou as que eu tomava por parisienses) eram as mais bem vestidas, embora houvesse uma pequena alteração na elegância. Havia algumas meninas vestidas de maneira mais informal, como a sublime gaja que, nas imediações de Saint-Germain-des-Prés, surgiu vestida com uma blusa do Motorhead, e não digo isso para você, menininha-indie-de-ribeirão-que-acha-a-sua-camisa-do-david-bowie-a-coisa-mais-legal-do-mundo, perceber como a vida pode ser dolorosa e injusta. É apenas para dizer: francesa vestida com a blusa do motorhead, cabelos de um castanho claro, olhos de um negror umedecido e distante, um espetacular casaco negro, uma saia também negra e um cachecol púrpura. Apenas por isso Lemmy, ao chegar no mundo dos mortos, será recebido por Napoelão. E havia uma outra com uma camiseta com uma estampa do Flash, sim, o das histórias em quadrinhos, uma outra com uma estampa da Mulher Maravilha, e uma outra que primeiro tomei por turista, mas depois percebi que não era, usando uma camiseta, oh-bon-dieu, onde apenas se lia Paris, Je t'aime,  e lá estava ela, sentada num dos bancos do Jardim de Luxemburgo, diante do senado francês, comendo batatas fritas, de cabelos curtos e loiros, com material escolar, pois sim, a verdade começava a se descortinar diante de mim e eu percebia que estava nas imediações da universidade de Sorbonne.

De todo modo, ao sair do Jardin du Luxembourg, eu sentia fome. Seguindo, ainda involutariamente, ou talvez levado por uma sabedoria ancestral e masculina, na direção da Sorbonne, encontrei um MacDonald's e um lanchonete chamada Quick Burguer. Como me sentia capaz de arriscar a própria alma num jogo de dados viciados, entrei no Quick Burguer, pedi um bom sanduíche, consegui entender o preço sem precisar dizer Pardon, madame. Je ne parle pas français très bien, e então passei a procurar uma mesa vazia, o que foi possível nos fundos da lanchonete. Era uma mesa de quatro lugares totalmente vazia. Ao ocupar um dos assentos, eu tinha a consciência de que poderia dividir a mesa com alguma alma estranha, pois assim as coisas funcionam no velho mundo: se há lugares vagos na sua mesa e o restaurante está lotado, as pessoas que chegam simplesmente sentam e comem ao seu lado, como se liberdade, igualdade e fraternidade não tivessem sido apenas motes para três filmes chatos. Prova de que é verdade o que eu falo: nem bem eu chegava à terceira mordida, surgiu um senhor francês e perguntou se podia sentar. Eu disse sim, ele agradeceu, sentou, abriu o seu notebook e começou a bebericar o seu café. Terminado o lanche, tratei de vestir a minha jaqueta, colocar a mochila nas costas, e pegar a minha bandeja para jogar o que restara de minha pequena refeição no lixo. E enquanto me esgueirava entre a mesa e a parede, muito concentrado, como se fosse um personagem vivido por Peter Sellers, perdi momentaneamente o equilíbrio, lapso o suficiente para o meu copo de coca-cola, ainda inacabado, lançar-se no ar, girar duas vezes em plena queda e sim, como o dado viciado que me levaria a dignidade, se espatifar na mesa, espirrando refrigerante para todos os lugares possíveis, inclusive sobre o notebook do francês. Disse Pardon ao sério homem com que havia dividido a mesa. Ao mesmo tempo, com um olhar de soslaio, percebi que o gerente da Quick Burguer, um francês careca e com um jeito de quem acredita nas faculdades morais da guilhotina, apontava a mesa que eu sujara para um outro funcionário, sendo que para este terceiro inimigo eu nem sequer lancei um olhar e, tomado pelo espírito rebelde da primavera de 68, lancei-me para fora do Quick Burguer o mais brevemente possível, agora um homem em fuga, e um homem em fuga anda alheio às coordenadas geográficas, o sul pode ser norte, o leste torna-se uma mera abstração, e foi assim, às cegas, que cheguei aos muros da Sorbonne.

E digo, senhores, senhoras, humanidade, eu alcancei os muros da Sorbonne às duas horas da tarde do dia 04 de novembro do ano de 2010 do Nosso Senhor Jesus Cristo, com o sol agora oculto pelas nuvens, rajadas de ventos esparsas soprando rumo ao sul e os termômetros da cidade de Paris marcando 16 graus celsius, uma agradável, uma doce, uma magnífica tarde de outono, com folhas amarelas e vermelhas recobrindo as calçadas como um inevitável tapete natural e revoadas de pombos cinzas voando, sem peso e fatais, talvez na direção do Sena. E eu não sei o que acontece nas imediações de Sorbonne às duas da tarde: talvez tudo, talvez nada, talvez fosse o meu último lance de sorte antes de perder a alma num viciado jogo de dados com o diabo. O fato é que aquela região, onde também vi inúmeros liceus, estava simplesmente apinhada de meninas estudiosas. Todas de pele imaculada, todas de lábios carmesim, todas de cabelos que recebiam o vento como se isso fosse a materialização de qualquer música entoada pela cidade, e entre elas a meninas com a camisa da estampa do Flash, e entre elas a rapariga de cabelos curtos onde eu podia ler a mais dolorosa frase do dia: Paris, Je t'aime, e cachecóis, e risos, e as folhas amarelas e vermelhas em queda, e nuvens negras ameaçando o Pantheón, e eu, batido por esse exército de fêmeas gaulesas, ora queria chorar, ora queria rir, ora delirava e ansiava lançar fogo sobre a cidade, embora tudo o que pudesse fazer era anunciar a minha rendição: eu, Daniel Francoy, a alma perdida num jogo de dados viciado, às duas horas e três minutos do dia 04 de novembro do ano de 2010 do Nosso Senhor Jesus Cristo, o corpo alquebrado por uma vontade inútil, o coração devorado e atacado até deixar de ser um coração e ser apenas devaneio, o cérebro trespassado por ondas de fogo e vertigem.


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